25 de abril de 2017

Não nascemos prontos

A terceira idade chega… E chega carregada de experiências, inúmeras lembranças e grandes aprendizados. A cada dia vivido até a chamada melhor idade, algo aconteceu. Uma escolha que foi feita, sob a dúvida de estar ou não no caminho certo; velhos amigos seguiram suas vidas e não foram mais vistos, novos amigos surgiram, alguns foram apenas de dias; outros se tornaram amigos de longa data. Houve discussões, divergências de princípios e conceitos. Houve conversas amigáveis, com concordância de assuntos e gostos. Alguns assuntos foram discutidos tranquilamente, se permitindo mudanças de opiniões, uma vez sendo aberta as portas e janelas da mente. Outros assuntos tiveram de ser, educadamente, cessados até o próximo encontro, por respeito ao parceiro de conversa.

Aos 60, 70, 80, 90 anos, muitas coisas foram aprendidas e também ensinadas. Muitos aprendizados ocorreram através de erros e de acertos. Lágrimas, sorrisos, gargalhadas, silêncios, ausências, falas. Cada momento, independente do efeito fisiológico e psicossocial que ocorreu antes e depois, teve importância na formação do ser idoso. Diria que isso é um processo e que todos nós, desde o nascimento estamos em processo permanente de aprendizado. Nunca paramos de aprender e em alguns momentos de desaprender, para então compreender e assimilar novamente. Isso é preciso pois “Não nascemos prontos” – como diz o grande filósofo Cortella, cuja frase mencionada intitula uma de suas obras. Nascer pronto nos atribui a ideia de que sabemos de tudo, que estamos satisfeitos com a nossa condição e, portanto, terminados, sem necessidade de ser mais, de criar, inovar, modificar, refazer. Isso é uma grande limitação.

Ensinar algo é um pouco mais complexo, porque ensinar é também deixar-se aprender. Quando se fala em mestres, nos vem a imagem de um ser idoso, já de idade, com cabelos brancos, caminhada prejudicada (devo ressaltar que esta imagem do idoso está se modificando diante das evoluções médicas, sociais e da nova consciência de uma vida com qualidade; e este é um tema passível de discussão em outro momento). Ser mestre não é apenas passar o conhecimento. Ser mestre é saber compartilhar experiências e saberes, alegrando-se com as conquistas dos alunos. É ser “dodiscente”, ou seja, ser que ensina e aprende (PIMENTA, et al, 2005). O Idoso pode ser, portanto, comparado à um mestre, cujas experiência nos trilhos da vida os torna seres sabidos mas em percurso contínuo.

Trabalho com esses mestres, “jovens à mais tempo”, há 6 anos e me considero um ser privilegiado por isso. Aprendo muitas coisas com as histórias de vida deles e também ensino algumas dos tempos atuais, desde tecnologias, que parece ser algo do além para alguns deles, salvo aqueles super antenados; até como são as formalidades para se namorar alguém hoje em dia. Diante de tantas conversas, em muitos momentos me questiono porque, embora tendo todas essas possibilidades de aprendizado, eu ainda erro na minha vida. E com eles, tenho obtido a resposta para tal questão: sou ser humano em constante aprendizado! Há coisas que não aprendemos a partir de um simples relato, de um conselho ou de uma conversa. Há coisas, que aprendermos vivenciando, passando por determinados momentos, tomando determinadas decisões as quais julgamos ser as mais coerentes. Por isso, vamos errar, vamos acertar, vamos nos corrigir e vamos ensinar, aprendendo sempre!!

Ao final deste breve artigo, proponho duas tarefas:

A primeira, quando tiver oportunidade, sente ao lado de um idoso e pergunte algo sobre a vida dele – coisas do tipo: qual foi seu primeiro emprego, como eram as festas de aniversário no tempo dele(a), como ele(a) conheceu a esposa/marido. Além de lhe trazer uma nova historia, fará um bem danado a ele(a) que, por vezes se sente extremamente feliz com alguém interessado em ouvi-lo(a).
A segunda, pense em algo que esteja lhe incomodando sobre a vida e tente iniciar uma conversa sobre esse assunto; perceba o que ele(a) pensa sobre isso e tente dialogar sobre seus princípios e os dele, seja concordando ou discordando.

Independente de qualquer coisa, você tem algo a aprender e a ensinar ao idoso e oposto é verdadeiro!

Boa Vida!!

Texto escrito por Gisele Antunes do Livramento, professora da Vivere Bene – atividades para maiores de 60 anos desde 2013. Gisele tem como uma de suas paixões o trabalho com idoso, área em que atua desde o início da sua formação.

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